Se antes eram muito comuns em diversas cidades do país, na última década as locadoras de filmes foram transformadas em lembranças enquanto assistimos o nascimento e a consolidação de grandes plataformas de streaming como Netflix, Amazon Prime Vídeo, Globoplay e HBO Max. Aliás, vamos parar por aqui para não fazer uma lista muito extensa.

O mesmo movimento aconteceu com a indústria da música. Os CDs, que antigamente eram objeto de queridas coleções, deram lugar a coleções muito maiores que cabem em nossas mãos. Como uma evolução dos antigos iPods, hoje, Spotify e Deezer estão há poucos cliques de nós e conseguimos ouvir uma infinidade de álbuns quando, onde e em que dispositivo quisermos.

Com essa facilidade, escolher o que vamos ouvir ou assistir acaba sendo a tarefa mais complicada levando em consideração o arsenal que temos à nossa disposição. Sem dúvidas, esse momento prazeroso pode ser ainda mais imersivo e gratificante quando temos familiaridade com outros idiomas, em especial a língua inglesa.

De acordo com pesquisas realizadas pela Bernstein Research, em 2020, a Netflix contava com mais de 17 milhões de assinantes no Brasil, tornando o país o segundo maior mercado da empresa fora dos Estados Unidos. Porém, se levarmos em consideração os dados levantados pelo British Council, em parceria com o Instituto de Pesquisa Data Popular, que nos diz que, em 2019, apenas 5% da população total do nosso país sabia se comunicar em inglês e, destes, apenas 1% era fluente, estamos dizendo que uma parcela muito pequena desses assinantes consegue navegar de maneira livre pelo catálogo.

Saber exatamente o que está sendo dito em uma letra de música vai muito além de entender a gramática. Trata-se da capacidade de conseguir se colocar no lugar do autor que escreveu a composição e entender, de fato, o sentimento que está sendo transmitido. Ainda neste ponto, devemos ressaltar que mesmo os filmes e séries com dublagem e legenda em português não conseguem uma imersão integral da audiência. Dublagens e traduções não são totalmente fiéis ao texto original e quando optamos por assistir o conteúdo legendado, ficamos, em diferentes níveis, presos aos trechos exibidos na tela e, como consequência, acabamos perdendo passagens de cenas importantes para o contexto da história.

De alguma maneira, é como se estivéssemos mais ligados ao texto da legenda do que ao conjunto dos estímulos que dão vida a uma criação audiovisual. Com isso, nosso entendimento acaba sendo brevel, não conseguimos, de fato, nos entregar ao conteúdo e ir além, podendo não identificar mensagens e reflexões que tenham referências da cultura local. Há muitos convites para que a gente se prenda às linhas de texto e perca detalhes essenciais para compreendermos a trama.

Escolhemos essa reflexão para comentar o quanto o aprendizado bilíngue vai além de simplesmente apresentar o idioma aos estudantes. Por meio das inúmeras vivências em sala de aula, há a possibilidade de experimentar elementos intangíveis de uma cultura, o que passa pelo desenvolvimento de competências em alta em nosso mundo, como empatia, colaboração e visão crítica. Ao se depararem com um produto cultural – como filmes, músicas, peças de teatro, etc – o cérebro bilíngue é transportado para o universo que deu vida ao conteúdo, estabelecendo conexões que vão muito além do texto em si.