Pode parecer clichê, mas ainda é válido defender que o aprendizado de um novo idioma vai muito além de entender um filme sem dublagem ou ser capaz de fazer uma viagem internacional sem passar por saias justas. A lista de benefícios que conquistamos ao aprender uma nova língua é muito ampla, especialmente quando pensamos no bilinguismo.

Quando se avalia o desenvolvimento cerebral de um bilíngue nota-se diferenças em relação ao de um monolíngue. Isso é o que vemos, por exemplo, no estudo Bilingual Language Learning in Children, realizado em 2016 para o Instituto de Aprendizagem e Ciências do Cérebro. No decorrer de seu desenvolvimento, o indivíduo bilíngue expande as possibilidades de conexões cerebrais, fazendo com que novos caminhos intensifiquem atividades como a chamada memória de trabalho. Essa ginástica mental acontece regularmente, pois o cérebro deve estar sempre atento e se esforçando para alternar entre dois idiomas diferentes, amplificando suas habilidades metacognitivas e metalinguísticas.

Manter o cérebro ativo é essencial para preservá-lo saudável, sendo assim, Pedro Calabrez, professor e pesquisador de neurociências da Universidade Federal de São Paulo, afirma que ser bilíngue retarda o surgimento dos sintomas do Alzheimer em até cinco anos. Já na Escócia, a Universidade de Edimburgo, apresentou um estudo em 2015 constatando que ser bilíngue pode ajudar pacientes na recuperação de um AVC (acidente vascular cerebral). Contando com 600 pessoas que foram vítimas da doença, o relatório indicou que 40,5% das pessoas que falavam mais de uma língua ficaram sem sequelas mentais, enquanto entre as que possuíam conhecimento apenas de sua língua materna só 19,6% ficaram sem sequelas.

Além disso, habilidades extremamente importantes para o convívio social são ainda mais incentivadas quando há o estudo de um novo idioma. O Massachusetts Institute of Technology (MIT), localizado nos Estados Unidos, revelou em uma pesquisa realizada em 2018, que o estímulo provocado no cérebro pela segunda língua desenvolve competências como a concentração e o controle emocional. A memória também é uma habilidade trabalhada no cérebro bilíngue, isso porque a pessoa precisa da capacidade de “armazenamento” dos idiomas, mas os benefícios não param por aí.

Há estudos que demonstram que o aprendizado de um novo idioma interfere no bom desempenho de crianças e de adolescentes em outras matérias da grade curricular. Facilidade em resolver cálculos matemáticos e possuir uma mente mais criativa foram os principais resultados de uma pesquisa realizada pela Universidade de Strathclyde, em Glasgow, na Escócia, com 121 alunos do ensino fundamental que dominavam inglês ou italiano.

Falar uma língua estrangeira desenvolve a comunicação, o interesse por conhecer novas culturas e lugares, mas, como vimos anteriormente, há ganhos para todas as dimensões da vida uma vez que o cérebro é desenvolvido de maneira diferenciada. Nesse sentido, acreditamos que o estudo da nova língua deve começar o mais cedo possível. O processo de aprendizagem acaba sendo divertido para os pequenos, já que os materiais utilizados são pensados para que a absorção do novo idioma seja realizada por meio de atividades leves, brincadeiras e estímulos que impulsionam os sentidos que estão sendo desenvolvidos na infância, como a fala e a audição.

A ideia de que o aprendizado seria prejudicado caso o estudante fosse exposto à mais de um idioma não passa de um mito que, como qualquer outro, pode ser desfeito com base em dados, estudos e prática pedagógica. Ser bilíngue nos torna pessoas mais preparadas para o mundo e a vida como um todo, além de, claro, termos um universo de possibilidades nos idiomas a que somos apresentados.